“55 Secondi” – O futuro não está escrito

“Deixa que te conte histórias dos meses do ano, de fantasmas e corações partidos, de terrores e desejo. Deixa que te conte de bebedeiras até tarde da noite e de telefonemas sem resposta, de boas ações e dias ruins, de término e reconciliação, de homens mortos que caminham e pais perdidos, de moças francesas em Miami, de lobos confiáveis e de como falar com as meninas. Existem histórias dentro das histórias, sussurradas no ouvido no silêncio da noite, gritadas acima do rugido do dia, e representadas entre amantes e inimigos, estranhos e amigos. Mas todas, todas são coisas frágeis inventadas usando 26 letras arranjadas e rearranjadas uma vez e outra para formar contos e fantasias que, se você deixar, irão deslumbrar os seus sentidos, assombrar a sua imaginação e movê-lo para as profundezas da sua alma.
(Neil Gaiman)

 

A fotografia tem o poder de parar o tempo. Algumas imagens, mais que outras, conseguem captar um momento e eternizá-lo. É o caso da capa do Jornal da Tarde do dia 6 de Julho que, para mim, é a primeira página mais marcante da história do jornalismo brasileiro. Todo o sentimento de um povo capturado pelas lentes de Reginaldo Manente. Existe outra foto, desta vez um salto de alegria, um homem que paira no ar. Dois momentos distintos, de tristeza e de alegria, as duas pontas do espectro das emoções humanas, que mereceriam estar na ‘cápsula do tempo’, na mensagem na garrafa que Carl Sagan enviou para o espaço a bordo da Voyager junto com saudações em 55 línguas, os sons da natureza, Bach, Beethoven, Mozart e “Johnny B. Goode” para explicar para outras vidas de outros mundos quem somos, de que somos feitos e toda a síntese do que é ‘ser humano’.

 

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A história da foto da primeira página todos nós sabemos. Na verdade, evitei ler ou assistir o vídeo que mostra o encontro entre o menino da foto e Paolo Rossi. Agradeço e passo, porque não preciso que ninguém me explique o que senti naquele dia. Da outra foto, a do homem suspenso no ar, não sabia nada. Talvez, por isso, um livro sobre ela me pareceu tão fascinante.

 

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“55 Secondi” conta a história daquela foto. A história de coisas frágeis, de sonhos destruídos e corações partidos. A história da expectativa de um momento único na vida, do fim da inocência, da primeira e mais dolorosa troca de pele que significa crescer. Eu poderia resumir tudo dizendo que é a história de como dois meninos romanos – e toda uma cidade – viveram a partida mais importante de suas vidas, mas esta seria uma visão simplista do que este livro representa. É a história de um 30 de maio que definiu os 30 seguintes. Porque o 30 de maio de 1984 não é apenas o dia em que a Roma disputou sua primeira final de Copa dos Campeões, numa época em que só os campeões participavam do torneio. O 30 de maio de 1984 não é uma partida, não é a partida, mas a chegada. E a grande beleza do livro não está em contar a partida em si, mas a espera, a maneira como ela foi vivida, vista e sentida por esses dois meninos, um de 11 e outro de 14 anos. Este livro é um acerto de contas com o fim da infância, é uma dívida paga consigo mesmo e com todos os outros que não são capazes de usar as palavras para descrever de maneira tão simples e comovente o que aquela imagem representa. É um livro feito para os filhos. Um legado.

Tonino Cagnucci e Paolo Castellani são os dois meninos narradores desta história. Entre a filosofia e o futebol, Cagnucci escolheu fazer do futebol sua poesia. Castellani enveredou pelo caminho da arte. É um estudioso, um colecionador e sua Monalisa é a camisa que Agostino Di Bartolmei usou naquele 30 de maio. Agostino Di Bartolomei é o homem que voa na foto. É o homem que escolheu um outro 30 de maio, dez anos depois, para deixar o mundo. Este livro é, de certa forma, necessário para explicar o outro 30 de maio e para render mais uma homenagem a Di Bartolomei.

 

“Ci abbiamo pernottato l’eternità di un attimo e tutto quello che abbiamo visto lo abbiamo visto solo noi.”

“Ci abbiamo pernottato l’eternità di un attimo e tutto quello che abbiamo visto lo abbiamo visto solo noi.”

 

Não importa se você gosta ou não de futebol, este é um livro que deve ser lido sem nenhum preconceito, porque mais que um livro sobre futebol, ele fala da vida. Esta viagem pela memoryland é um passeio de mãos dadas com esses dois meninos por uma Roma desconhecida, toda pintada de vermelho e amarelo, ruidosa e ansiosa, que respirava um perfume de esperança e sonhava toda o mesmo sonho. É também um retrato de uma geração que leu demais, ouviu muita música, viu e sentiu demais e agora tenta explicar para aqueles que têm tudo em um clique, como era viver tendo tanto sem ter quase nada. Toda a emoção de ouvir uma partida de futebol pelo rádio, usar mais a imaginação que os outros sentidos. A última geração analógica da história, que assistiu Blade Runner e saiu do cinema imaginando que um scanner de fotos era uma coisa quase tão impossível quanto o teletransportador. A geração que viveu cada pequena alegria sabendo, no fundo, que de pequenas elas não tinham nada. “Eu vi coisas que vocês não acreditariam“, vocês da geração dos iPhones, das SmartTVs, da internet por fibra, das redes sociais, não fazem idéia. E como era maravilhoso imaginar, sonhar, ansiar por alguma coisa. Não existe vida sem música e cada capítulo é permeado pela trilha sonora de 1983/84 – fazendo uma exceção ao The Clash, porque eles são eternos e sempre pertinentes – The Cure, Lotus Eaters, The Police, U2, The Smiths, Wham e Antonello Venditti. A música que descrevia o mundo, a vida e o amor que nós, humanos, iríamos um dia sentir.

É impossível passar pela vida sem perder algumas coisas, sem algumas cicatrizes. É preciso acertar as contas com o passado para poder seguir em frente, mesmo que, às vezes, pareça difícil encontrar a força para fazê-lo. A maneira que Cagnucci e Castellani encontraram para recontar o melhor, o maior, o mais incrível, o mais marcante e o mais terrível momento de sua infância é uma conversa que atravessa os nove meses da campanha romanista na Copa de Campeões, sem deixar de render homenagem ao adversário que destruir o sonho. O livro começa e termina com uma respeitosa reverência ao Liverpool, contando a final da Copa de Campeões de 1977, entre Liverpool e Borussia Mönchengladbach, disputada em Roma, e fecha o círculo com “You’ll Never Walk Alone”, a música que o Liverpool tomou para si e paira acima dos portões de Anfield. Neste livro, em nenhum momento, mas especialmente naquela primavera inesquecível de 1984, caminhamos sozinhos. A primavera antes do inverno do descontentamento, antes do adeus do Divino Falcão, antes da tempestade que se avizinha e levará o Barão e o Capitano para Milão, como sonhava Próspero. “Somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos; nossa vida pequenina é cercada pelo sono“. E sonhos de criança, mesmo delicados, são difíceis de matar. Nós devemos falar sobre as coisas que nos fazem mal, porque 30 anos é muito tempo para prender a respiração. É preciso voltar a respirar, abrir as janelas e as gavetas, soltar os fantasmas, renovar os sonhos, confiar no coração e começar a escrever uma nova história.

O futebol é uma metáfora da vida, das batalhas diárias, do amor perdido e reconquistado, de pequenas vitórias e grandes derrotas. Não. O futebol é a vida. É perder algumas e ganhar outras. É a próxima partida. É a expectativa de alguma coisa que nos faz sentir grandes, mesmo que só por 90 minutos. É a memória que nunca se apaga. O futebol é amor. Por um time, pelas suas cores e pela sua história feita de lágrimas de alegria e tristeza. Uma história feita por homens, que nunca serão comuns na lembrança de uma criança. O futebol é uma herança que passa de geração para geração e está impressa no DNA. O futebol são aqueles 55 segundos suspensos no tempo por 30 anos e para sempre. 55 segundos em que tudo parecia possível. 55 segundos em que a Roma era de novo o centro do Universo, no topo do mundo, a maior da Europa. Quem não entende isso, nunca entenderá.

 

© Lilian Trigo

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Informazioni su Tonino Cagnucci

Romanista. Papà di Lorenzo

Pubblicato il 10 luglio 2014, in Articoli, Libri, Mondo con tag , , , . Aggiungi il permalink ai segnalibri. Lascia un commento.

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